quinta-feira, 13 de junho de 2013

Dallas Guitar Show 2013 - Em busca do Cálice Sagrado (Parte 3)

Oscar Isaka Jr.



          Enquanto estava planejando a minha viagem aos EUA, dei uma vasculhada nos eventos da região pra ver se algo coincidia e me deparei com a feliz notícia que o Dallas International Guitar Festival iria acontecer em um dos finais de semana que estaria em terras americanas. Não hesitei e fiz planos pra visitar Dallas (apenas 3 horas de viagem de carro de Austin) e o festival, já imaginando que tipo de surpresas me aguardavam num evento desses.
Pesquisei um pouco sobre esse festival em fóruns gringos e todos diziam que era muito bacana, muitos instrumentos expostos (stand da PRS, Gibson Bus, etc.) bastante opção para negócios e cheio de shows e artistas (Andy Timmons no último dia). Pensei: "Ok, vamos baixar um pouco a expectativa tupiniquim e ver o evento", mas confesso que estava numa ansiedade danada de ver uma Gibson Les Paul Standard Sunburst dos anos 50 ! Se eu não conseguisse num festival desses, não sei onde mais conseguiria! :-)


         Chegando ao evento no primeiro dia, eu parecia uma criança na fábrica do Willy Wonka. Imaginem um galpão do tamanho de um hipermercado (desses grandes mesmo) LOTADO de stands com guitarras.


Meu plano era ir andando entre os corredores sem pressa, olhar tudo numa primeira andada e depois voltar onde achasse que seria mais interessante. Mas o problema é que TUDO era interessante! Nas fotos que seguem, uma ideia mínima da coisa:

Sim, um TrainWreck Climax!

Gibsons no stand da Fuller's Vintage Guitar
(Ace Frehley Budokan ao centro e Joe Perry à direita)




Tinha até caminhão lá dentro! :)


Um leilão seria realizado no sábado e eis a primeira Burst que vi na minha vida. 1960 100% original. Foi leiloada por USD 125.000,00 nessa mesma noite...

Les Paul 1960 original

Vários instrumentos também constavam no leilão, como essa Les Paul 1958 e os dois itens Fender atrás:


Vi guitarras que eram verdadeiras obras de arte com marcações e pinturas realmente impressionantes. Até as "Crash"que ficaram famosas nas mãos de Eric Clapton ganharam seus devidos tributos:


Guitarras Zemaitis - sempre lindas! 

E finalmente os instrumentos Vintage começam a aparecer. Stratos, Teles, 335 e, claro que elas tinham que dar o ar da graça, Les Pauls!





        Primeira surpresa de sábado: bem no final do salão principal havia um stand cheio de captadores em caixinhas pretas numa pequena mesa. Captadores exercem uma força de atração sobre o japonês aqui então é claro que tive que ver o que era e encontrei essa simpática senhora correndo de um lado para o outro no stand usando óculos no mínimo sugestivos para o evento. Chegando mais próximo, confirmei minhas suspeitas. Essa senhora era nada menos que Maricela Juarez em pessoa e o stand era o da Seymour Duncan Custom Shop.

Maricela Juarez e Oscar Isaka Jr.

Sempre gostei de testar captadores de diversas marcas e modelos e especialmente depois que comecei a estudar os PAFs, minha curiosidade pelas variáveis que captam nosso timbre só aumentou.

MJ é conhecida como "The Mojo Queen" pelos amantes dos timbres e é uma lenda viva tanto quanto o próprio Seymour quando o assunto é captadores. Das mãos dela saíram os captadores que equipam guitarras de ícones como Jimmy Page, Jeff Beck, David Gilmour, Billy Gibbons, entre outros projetos como o último Frankenstein Humbucker que equipou as caríssimas réplicas da famosa guitarra de Eddie Van Halen e o mais novo e ambicioso lançamento da Seymour Duncan: As réplicas dos PAFs da Les Paul 1959 de Joe Bonamassa (mais sobre isso ).

Trocando em miúdos, Maricela é o braço direito do velho Seymour e gerente geral da Seymour Duncan Custom Shop. A mulher sabe o que faz, além de ser a simpatia em pessoa!


         Passei algumas horas olhando os captadores expostos e conversando com MJ e seus assessores sobre os modelos e, claro, acabei trazendo alguns pra mim.
Farei reviews deles aqui no Blog mais pra frente, mas vou adiantar o seguinte: conheço e já testei pelo menos 80% da linha de produtos da Seymour Duncan, mas os captadores da Custom Shop são algo diferenciado. MJ Sabe o que faz quando o assunto é timbre. Além de ser a simpatia em pessoa.
Um fato que me chamou atenção foi o de que nem todas as pessoas que paravam para ver os captadores conheciam a Seymour Duncan. Pasmem, mas parece que eles são mais famosos aqui no Brasil do que no próprio território americano...


         Começa domingo, segundo dia do festival. Nesse dia estava determinado a olhar as coisas com calma e tentar tocar de uma vez por todas numa das Les Paul vintage que tinha visto expostas. No sábado havia tocado em algumas re-edições de diversos anos mas nenhuma real ainda. Queria poder confrontar as referências sonoras que estavam na minha cabeça com a coisa real, já que tinha visto pelo menos 5-6 originais em seus cases no primeiro dia, sem poder plugá-las.


         Quando voltei ao stand onde tinha vista 3 lindas "Burst" uma ao lado da outra no dia anterior (uma 58, outra 59 e uma 60 - foto acima) todas com seus devidos nomes, prestei mais atenção e as iniciais TW59 no topo do mesmo me pareceram familiares. Já tinha visto aquilo em algum lugar...
Pois é, foi nisso que vi um cidadão com um case Gibson Lifton (aquele marrom da custom shop) vindo na minha direção para falar com um senhor grisalho que estava tomando um café bem ao meu lado.
Observando, dei um passo atrás e o rapaz com o case o apoiou uma cadeira à minha frente e disse (traduzido): "Tom, eu trouxe a Sandy, vc poderia autografá-la por favor? ". Minhas suspeitas estavam certas, as as iniciais TW59 se referiam a ninguém menos que Tom Wittrock, o lendário colecionador de Bursts com mais de 20 em sua coleção.

Pra vocês terem uma ideia da importância desse sujeito, ano passado a Gibson Custom Shop deu início a um programa chamado  "Collectors Choice", onde seriam eleitas e reproduzidas nos mínimos detalhes Les Pauls icônicas, pertencentes à colecionadores famosos, que ainda estivessem disponíveis hoje para análise. Para a edição de número 4 (Clique aqui) foi escolhida a "Sandy", uma Gibson Les Paul Standard 1959 que pertence a Tom Wittrock.

Durante um papo agradável com Tom (muito solícito e gente fina), conversamos sobre Bursts, sobre "Sandy" e como a Gibson tinha conseguido replicar 100% a guitarra (a ponto dele não conseguir distinguir a original das cópias num teste cego), sonoridade PAF (e como os 57 Classics da Gibson não têm nada a ver com PAFs....), entre outras coisas de Les Paul maníacos, até que ele mencionou que ficaria feliz em me deixar tocar com uma de suas Burst se tivesse alguma maneira conveniente de plugá-las no festival, o que infelizmente não tinha. Cheguei perto mas não foi dessa vez que ouvi uma Burst de verdade pessoalmente. Mais uma grande experiência que tive com uma lenda do mundo das guitarras.

Tom Wittrock e Oscar Isaka Jr.

         Depois de ver bastante instrumentos e alguns shows e clinicas, era chegada a hora de assistir Andy Timmons. Me dirigi ao palco principal do evento do lado de fora do pavilhão e esperei um pouco. Mr Timmons apareceu no backstage e começou a se preparar para o show ajustando sua pedaleira e cumprimentando o povo enquanto os roadies ajustavam seu stack de Mesa Boogies. O show foi espetacular e é realmente incrível ouvir Timmons tocando ao vivo com o mesmo timbre e pegada que escutamos no CD.

Andy Timmons

Electric Gypsy deu fim ao Dallas Guitar Show e a um final de semana de muitas guitarras, experiências e diversão. Foi uma pena não ter conseguido tocar nas Burst depois de ter chegado tão perto, mas pude mais uma vez expandir as referências, conversar com lendas do timbre e me divertir um bocado.
Valeu a pena!!

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PS: Quando o Oscar estava fazendo o post, combinamos de eu acrescentar alguma coisa sobre o mercado (meio underground mas extremamente ativo) especializado de Les Paul (e outras) vintage. Nesse universo, onde fortunas e bursts raríssimas trocam de mãos (algumas de astros do cinema e milionários não menos famosos), muito bem descrito no livro "Million Dollar Les Paul", de Tony Bacon, Tom Wittrock é uma autoridade e referência. 
Mas resolvi deixar esse assunto para um post em separado, mais pra frente, pois aqui tem assunto de sobra pra discutir... :)
Paulo May

terça-feira, 11 de junho de 2013

Telecaster Paisley Custom

  Paulo May        

         Estamos com a terceira parte da saga "Les Paul R9" quase pronta. Enquanto isso, uma pausa para o recreio. Acabei de finalizar a minha mais nova Telecaster: A "Paisley FGP":


Em janeiro desse ano um grande amigo meu do fórum da Guitar Player Brasil, o luthier André Corradi, veio com a família passar alguns dias em Floripa e me trouxe de presente um lindo braço de Roxinho, com frisos e tudo mais. De cara vi que a cor dessa madeira brasileira combinava com o corpo da minha tele vinho/vermelho metálico. Em fevereiro fui montar e sem querer deixei cair uma gota de Super Bonder no corpo. Só vi quando já estava tudo grudado... Depois de muitas reviravoltas, resolvi colar no top uma folha de papel indiano com detalhes metálicos e tentar um efeito "Paisley", que a Fender usou na década de 70 (era papel de parede com motivo Paisley). Deu certo, mas dessa vez enviei para o luthier Inaldo finalizar com verniz e polimento. Ficou linda! As Fotos não fazem jus.


Como já tinha dois caras do fórum envolvidos nessa guitarra, aproveitei e coloquei a linda placa de fixação do braço/neck plate do luthier Tanaka só pra fechar a trinca.


Eis a Paisley FGP, então. O braço de Roxinho (detalhe: braço e escala em peça única) não interfere na sonoridade clássica, pelo contrário, soa muito semelhante a um braço de maple com escala de rosewood.
Um belo presente do meu grande amigo, o luthier André Corradi :)



Especificações:
Corpo: Alder, 2 peças (colagem central)
Braço: Roxinho, quase em "D"
Frequência de Ressonância do Braço: F# (F#3)
Escala: 251/2", Roxinho, Raio: 10". Nut: latão
Tarraxas: Grover Mini Rotomatics
Captador Ponte: Sérgio Rosar Vintage Hot T com pinos de alnico III escalonado - 7,2K
Captador Braço: Genérico rebobinado: 6,5K
Pots e capacitor: Vol: 250K Tonalidade: 500K capacitor 0.047uf.
Ponte: (Ferrosa) GFS com 6 saddles de aço

Essa é a única Telecaster que tenho com pot de volume de 250k e acho que não vou trocar. O alnico III soa mais macio que o V e um pot de 500k pode abri-lo demais. O captador do braço tem o som típico desses captadores com capinha metálica: mais fechado e sem muito estalo. Com exceção do original da minha Tele de 1968, que tem uma saída fora do padrão da época, com 8,5k, nunca gostei desses captadores. Já testei muitos deles, inclusive o Quarter Pound Seymour e o Fender Twisted. Às vezes até soam bem, mas nunca divinos.
Esse corpo já compôs outra Telecaster, essa que tá nesse post e nos vídeos (clique).

Adendo 13/06/2013:
O Fabiano sugeriu e como eu tinha as fotos prontas, vou postar aqui mesmo pra não ter que fazer outro post:

Aqui, o corpo parcialmente lixado e pronto pra receber o papel "artesanal indiano", comprado em livraria. Usei o corpo para delinear o primeiro corte com tesoura. Cortei "por dentro" dos contornos, já que o lápis passa por fora do corpo.


Utilizei rolinho e cola de madeira com uma pequena diluição pra escorregar e posicionar melhor a folha no top. Foi um erro utilizar cola de madeira, sensível à altas temperaturas e umidade - deveria ter pesquisado um pouco mais. Após o verniz final, uma pequena parte perto do control plate descolou. Ainda bem que foi pequena, mas em determinados ângulos de visão, dá pra perceber bem... Vivendo e aprendendo :)

Utilizei um estilete com ponta novinha, posicionei o top pra baixo e cortei o mais rente possível pra evitar sobras nas bordas. Sempre fica alguma coisa sobrando... Na hora pensei que ia complicar, mas dei um jeito depois, após passar a laca indiana.

Após aplicação de goma laca com esponja e pano. A cor do top não podia ficar roxa total porque o restante do corpo é vinho metálico. Já havia testado antes nesse papel e sabia que ao passar a goma laca (também diluída em 1/3 ou 1/4 de álcool) o tom iria mudar e aproximar do vinho. Só não podia ficar muito amarelado...

Até gostei desse ponto e quase parei por aí. Mas comecei a achar muito "over". Mesmo acentuando a laca (outro vidro, com mais corante roxo e vermelho) nas bordas, não conseguia escurecer no ponto desejado.

Aí peguei os dois vidros de tinta PVA cintilante, misturei até chegar num ponto meio vinho (no pote) e apliquei, também com uma esponja.

Agora sim, quase pronto e fazendo uma transição mais uniforme com as laterais. A laca endurece depois que seca e ficou fácil, nesse ponto, retirar algumas sobras do tecido e deixar as bordas bem uniformes, Utilizei lixas (280/320), com muito cuidado pra não arranhar as laterais.

Por coincidência, um dia após acabar e já apavorado pensando em quantas camadas de verniz spray teria que passar pra cobrir tudo isso (o papel cria um relevo), o meu luthier, Inaldo, foi até a minha casa, viu o corpo, gostou e pediu pra finalizá-lo. Como todo cara experiente, conseguiu uma tinta na mesma cor original dela , repintou toda a traseira e laterais e envernizou tudo após. Foi nesse processo que houve o descolamento parcial numa das bordas do control plate. Ele ainda jogou um pouco da tinta original por cima de tudo, pra escurecer e ficar mais discreto. Mesmo com o pequeno defeito, ficou linda. :)

PS: Se eu soubesse disso (clique) antes de todo esse trabalho, talvez optasse pelo adesivo... Mas não teria tanta graça! KKKK!
Visite o site da Custom Guitar Wear aqui do Brasil: http://cgw.iluria.com/index.html?locale=pt-br

domingo, 9 de junho de 2013

Blindagem Caseira - minimizando os ruídos das guitarras


Oscar Isaka Jr.



Ruído... Um grande problema de todo Strateiro, 
Todos os captadores do tipo "Single Coil" (uma única bobina) apresentam o famigerado ruído/zumbido de 60 ciclos/segundo, o famoso "60 Cycle HUM". Não vou aqui entrar em detalhes técnicos do problema, mas o fato é que ele existe e não tem cura. Costumo dizer que ele é parte integrante do som de um bom TRUE SINGLE COIL :P . 

Além do "60 Cycle Hum" outras interferências podem ocasionar vários tipos de ruído e chiado, como rádios, ondas eletromagnéticas oriundas de monitores e/ou TV entre muitos outros que fazem parte da nossa vida cotidiana. Nem Humbuckers (que não apresentam esse ruído de 60 ciclos) escapam dessas interferências externas, mas elas ficam mais evidentes nos Singles, pois esses não possuem qualquer tipo de cancelamento de ruído.

Resumindo, qualquer captador, pela sua estrutura (uma ou mais bobinas com fio condutor enrolado e próxima a um imã) pode funcionar como uma antena e captar desde ondas eletromagnéticas até sinais de alta frequência, como rádio e TV.

O 60 Cycle Hum é chato por si só, mas ter ele e mais a OuroVerde FM tocando no AMP é demais né? :D 

Então, utilizamos um princípio básico de física, conhecido como "Gaiola de Faraday", que isola um corpo de interferências eletromagnéticas externas, para minimizar os ruídos das guitarras. Esse processo é conhecido como "Blindagem". A blindagem diminui as interferências externas, mas obviamente não elimina o "Hum" porque ele é inerente à estrutura do single coil.

Update: O Luthier Edilson Hourneaux propõe em seu blog uma outra abordagem sobre a blindagem. Não tenho o fundamento teórico para dizer o que é "mais correto" tecnicamente mas vale a pena conferir. Fato é que a blindagem diminui ruídos do instrumento, qualquer que seja a razão por trás disso ! :D


Fiz uma conversão da minha Fender há um tempo atrás de HSS pra SSS clássico, e resolvi fazer uma blindagem das cavidades. Utilizei para tal, fita dupla face, papel alumínio de forrar fogão e muita paciência. Tirei umas fotos do processo pra dividir com vocês. 

Eis a srta. antes da cirurgia :

Primeiro fiz o escudo. Colei fita dupla face cobrindo toda a superficie da folha e alumínio afim de ter "cola" em toda ela e cortei o suficiente para cobrir a cavidade dos captadores. É importante que toda a cavidade seja coberta. 


Aqui já com a nova parte elétrica e caps instalados:


O Próximo passo foi blindar a cavidade da guitarra. Essa é a parte que exige paciência e capricho. É muito importante que toda a cavidade seja coberta. Isso vai proporcionar a formação da Gaiola de Faraday que é o objetivo da blindagem. O princípio é o mesmo usado em pedais e outros circuitos, bloqueando interferências externas. Na WikiPedia tem uma explicação bacana da Gaiola de Faraday com termos ténicos

Cavidades da Fender recebendo o alumínio:




Depois de pronta. Notem que eu deixei umas pequenas "abas" nas bordas da cavidade. Isso é para fazer contato com o alumínio do escudo. Alias esse é um ponto importante. Tenha certeza que todos os pedaços colados de alumínio estejam em contato.




Depois é só montar e apreciar o resultado :


Fica a dica!!!

Abraço! 


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PS1: Sim, blindagem de guitarra não é uma gaiola perfeita porque os próprios captadores interrompem a integridade da estrutura. O Edilson está correto. Mas uma coisa é teoria e outra, prática. Na prática, MEIA blindagem é melhor do que nenhuma. 
Imagine os ruídos externos como uma "chuva". Na chuva, até um guarda-chuva pequeno é melhor do que nada...
Tenho teles e stratos e as teles sempre foram menos ruidosas que as stratos. Isso é devido à estrutura metálica da ponte, que isola parcialmente o captador dali e à capa metálica do captador do braço. Há redução de ruído - fato observado há mais de 50 anos - e obviamente a blindagem nem de longe é uma gaiola fechada.

Temos que nos lembrar que captadores geram um sinal baixíssimo, que ao ser amplificado, carrega consigo os ruídos próprios e captados. Quando blindamos uma guitarra, eliminamos uma porcentagem dos ruídos externos captados e as notas soam mais limpas, principalmente no sustain, pois a nota gerada pela corda tem um decaimento, mas os ruídos não. E isso me leva ao próximo item:

Quanto ao mito da blindagem alterando o timbre:

Já falei aqui que a presença de metal nas proximidades de um captador gera um fenômeno físico conhecido como indutância, que por sua vez degrada o sinal captado das cordas, principalmente as frequências mais altas. A blindagem acrescenta uma (muito) pequena indutância e portanto uma (muito) pequena degradação dos agudos. Porém, ao reduzir os ruídos, ela revela harmônicos até então camuflados, aumentando a percepção de "clareza" do timbre. 
Portanto, o resultado final de qualquer blindagem com um mínimo de eficiência é sempre positivo em relação ao timbre.

Paulo May



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Guthrie Govan - Técnica a serviço da música.

Oscar Isaka Jr.

POOOTZZ , lá vem os puristas malhar um fritador... Calma gente não é bem isso.... kkk !

         Quando estava na minha viagem de férias meu "cumpadi" Frederico enviou um e-mail avisando que ia ter Workshop do Guthrie Govan aqui em Curitiba e perguntando se eu não tava a fim de ir que ele compraria nossos ingressos. Se tem uma coisa que eu gosto tanto quanto ir em lojas de instrumentos comprar minhas guitarras é ir em shows e workshops, especialmente do escalão nosso nosso amigo londrino, então prontamente aceitei.

     
         Contando um pouco da sua história, Guthrie Govan disse que começou a tocar aos 3 anos de idade e  sempre tentava reproduzir as melodias e acordes que escutava na guitarra  mesmo sem saber direito o que estava fazendo e que ao contrário do que parece, ele nunca foi uma criança que ficava horas tocando com um metrônomo. A técnica que possui hoje é um resultado de tocar muito sim, mas aquilo que gostava. Lembro de ele ter enfatizado umas 4-5 vezes durante o workshop que todos nós deveríamos usar a guitarra (ou qualquer outro instrumento) como um meio pra fazer a música dentro da gente sair pelo amplificador. Até aí nada de anormal, quase todos eles falam isso, mas eu veria mais pra  frente que esse cara tinha algo diferente, além da capacidade de tocar fusas...


Entre tocar músicas de maneira perfeita seja de seu álbum solo ou com sua banda "The Aristocrats", algumas perguntas da platéia eram feitas e duas se destacaram pra mim...
A primeira:

Pessoa: Gostaria de saber se vc tem uma rotina de estudos com palhetada alternada, escalas e etc....
Guthrie Govan: Não, isso é como tirar a diversão daquilo que eu gosto de fazer, que é música. Sempre toquei as músicas que eu gostava e tentava tocar da maneira mais limpa e perfeita que eu podia. Acho que assim desenvolvi minha técnica naturalmente. Tirava os acordes de Jazz de ouvido e em algum momento eu quis saber os nomes daqueles trecos que eu fazia (referindo-se aos acordes) e por isso estudei um pouco de teoria, mas estudar técnica pra mim é como o Bart Simpson (de castigo) escrevendo no quadro negro "Não vou mais fazer isso, não vou fazer mais isso..." .

Depois de responder ele emendou ainda: "Nós homens temos esse treco chamado testosterona que diz que sempre temos que ser melhores que o outro cara. Tive alunos que estudavam horas de técnica só pra dizer que tocavam tão rápido quando o Malmsteen, mas cadê a música?"

Seguindo a pergunta 2:

Pessoa 2: Vc conheçe Allan Holdworth?
Guthrie Govan : Sim, já toquei com ele uma vez.
Pessoa 2:  Vc poderia falar sobre o estilo dele e tocar um pouco?
Guthrie Govan : Até poderia, mas acho que você está no Workshop errado. Estou aqui pra ajudá-los, não pra ficar fazendo pirotecnias na guitarra....

Esses dois pequenos diálogos fizeram com que esse cidadão esguio e de barba estranha ganhasse 100% do meu respeito e atenção.

          Hoje gosto muito de um Blues e da espontaneidade do Rock mas aprendi a tocar guitarra escutando metal, já tive meus períodos em que guitarrista bom era guitarrista técnico. Guthrie Govan claramente não está nem aí pra tocar rápido ou mostrar sua exuberante técnica, mas sim para fazer SUA MÚSICA. E daí que ela tem muitas notas? É a música que o cara faz! Concordo que essa pode eventualmente ser "meio chata", que é "música pra músico" e etc, mas Steve Vai e Satriani também não sofrem do mesmo mal muitas vezes? Como todo exímio guitarrista de Fusion, ele incorpora todos os ornamentos possíveis no seu tocar, aplicando com muita propriedade os múltiplos elementos a fim de gerar um vocabulário guitarrístico abrangente, que tanto pode ser chato como um poema de Camões ou uma obra prima como uma pintura de Picasso. Ao invés de explorar as cores de uma Les Paul com timbres complexos e dinâmicas bluseiras, prefere saborear os modos gregos e sonoridades dos intervalos das escalas e campos harmônicos mais rebuscados com técnica exuberante, mas sempre com coerência e propósito.

Aqui uma aula do mestre Govan. Muito interessante como ele faz a metamorfose de uma pentatônica:


terça-feira, 28 de maio de 2013

Gibson SG 61 e 345 Stereo 63 e Fender Stratocaster 69 - Em Busca do Cálice Sagrado (Parte 2)

Oscar Isaka Jr.



          Decidimos (eu e o Paulo) contar a saga em partes pois nessa viagem, além da busca pela Les Paul do Paulo, teve muita coisa interessante. Foram duas semanas de intensa atividade guitarrística que vamos tentar dividir com vocês. Descrever timbres em palavras é meio complicado podendo soar até ridículo e engraçado em alguns momentos mais metafóricos, mas temos alguns vídeos pra auxiliar nessa tarefa.

         O destino era Austin, no estado do Texas, onde morei e fiz meu intercâmbio cultural em 2000. Fui justamente visitar a família que me acolheu e com a qual mantenho contato até hoje.

A decoração do próprio aeroporto já sugere que estamos no lugar certo!

Para poder achar uma guitarra foda, eu precisava construir algumas referências e nada melhor que ir às lojas e testar guitarras. Meu plano era visitar as grandes Guitar Center e lojas locais na esperança de encontrar algumas Reissues e quem sabe alguma vintage de verdade.

Essa era a primeira vez que eu estava nos EUA depois que virei um fanático por timbres e queria por em prática, direto na fonte, tudo aquilo que tinha experimentado e lido nos últimos 4 anos.
Como soaria uma Strato velha? Um P90 dos anos 60? Uma Tele dos anos 50? Será que os timbres que temos hoje à nossa disposição com as "Reissue" é realmente próximo ao das originais antigas? Todas essas perguntas estavam com prioridade alta nas minhas sinapses enquanto vagava por Austin e parava em qualquer beco com uma placa que dizia "Guitars", mas confesso que minha esperança maior era achar uma Gibson Les Paul Sunburst original com PAFs (o verdadeiro Cálice Sagrado das guitarras) e constatar pessoalmente o som intangível e mágico que a combinação LesPaul + PAF gera.
Eu e o Paulo passamos incontáveis horas, dias, meses discutindo, lendo e pesquisando sobre o assunto, mas nenhum de nós tinha a referência real e definitiva.


A primeira loja que parei tinha um aspecto de Pawn Shop (Casa de Penhores), com guitarras usadas, e amps empoeirados de marcas que eu nunca tinha ouvido falar, por todos os cantos. A SouthAustinGuitars me parecia o lugar perfeito para achar raridades e coisas bacanas! Logo na entrada vi uma parede onde estavam penduradas uma Gibson 345 Stereo 1963, uma Gibson SG Special 1961 e uma Fender Strato 1969! Comecei bem a minha caminhada. :-)

A Gibson SG 1961 com dois P90 foi a escolhida para começo das atividades. Pedi pra testar essa mais pela curiosidade por ser uma 61, pois nunca tinha me entendido bem com os P90. Ainda bem que a testei.
Muito já li sobre a diferença dos P90 vintage e atuais e pude constatar isso com essa SG. O som rude, sem frescuras e direto veio esmurrando o coitado do Deluxe Reverb com aquele médio agressivo bem característico, sem sobras! Captador da ponte com um certo twang com médios característicos de Tele e o cap do braço com um som de single gordo e agressivo, quase como um humbucker, mas muito articulado! Notem no vídeo o ataque das notas graves na região baixa da escala - em nenhum momento sobram agudos e nem sibilância e os médios mordem como um cão raivoso!!
E a saturação então?? POOOTTZZ!!!  AGORA SIM experimentei o real sabor do P90 clássico e confesso que gostei bastante do que ouvi. Dá pra tocar de tudo com esses captadores, desde um Blues até um Rock/Hard Rock!!  Preço: US$ 5.000,00. Se eu não tivesse ambições maiores nessa viagem, teria levado a guitarra pra casa. Adorei essa SG!
Gibson SG Special 1961


         A próxima foi a Gibson 345 1963 que pedi pra testar com o maior medo de levar uma invertida (trauma de algumas lojas por aqui) mas pra minha surpresa o vendedor disse "Sure"!
Pausa: A Gibson 345 é uma semi-acústica parecida com a famosa 335 em construção, mas que contém um seletor de 5 posições que aciona capacitores para vários timbres diferentes, chamado "Varitone" (a famosa Lucille de BB King possui esse sistema) e saída estéreo para dar a possibilidade de ligar em dois amps distintos e obter assim maior diversidade timbrística.
Na prática, o sistema não foi um grande sucesso e a maioria dos guitarristas da época a deixava MONO e desabilitava o Varitone.
Quando me trouxe a guitarra, o vendedor contou que ela havia sido modificada levemente com uma troca de trastes (era uma "player" obviamente e não uma mera peça de coleção) e seu Varitone havia sido modificado para "splitar" os dois humbuckers que pra minha sorte eram os chamados "Early PAT# Purple Wire".
Poderia escrever um livro aqui somente sobre eles (faremos em breve um post completo sobre humbuckers clássicos), mas vamos dizer por hora que esses foram os primeiros humbuckers logo depois dos PAFs autênticos e portanto mantém várias características de construção (se não todas) dos PAFs originais.

Patent # e P.A.F.

Para o teste escolhi um Fender Deluxe Reverb Reissue (foto abaixo) modificado com falante Eminence Texas Heat, trafos Mercury Magnetics e alguns capacitores substituidos pelos famosos Sozo, num conjunto de "mods" muito famoso nos EUA. Vários "modders" adquirem amps novos e instalam sua mágica antes mesmo de chegarem às lojas, possibilitando comparações com o amp padrão de fábrica. Nesse caso as mods realmente deixam um ótimo amp ainda melhor!


Esse amp tinha uma excelente profundidade nos graves (como todo BOM Fender BlackFace) e quando empurradas, as 6V6 saturavam de maneira extremamente cremosa e musical. Equilibrado em todos os sentidos. Nos FDRR "stock" que testei em outras lojas (mais tarde na viagem), havia um "fizzy" nos agudos, quase como um "FUZZ" nas frequencias mais altas e os graves eram mais magros e chochos. Ainda um bom timbre Fender, mas como minha referência estava nesse FDRR modificado, percebi que as mods realmente fazem  diferença.

Com a guitarra em mãos pluguei a bichinha e logo na primeira nota já gostei do que ouvi. O estalo do ataque dos médios seguido da compressão, detalhamento de agudos e o "bloom" que tanto li a respeito estava saindo do amp ali na minha frente. Tudo encaixou na minha referência do som do humbucker clássico! Incrível! A dinâmica impecável, resposta à palhetada, o drive... Tudo estava lá, associado claro, à característica fumacenta e oca (smoky hollow) da natureza da semi-acústica. Nada do que experimentei de captadores até hoje chega nesse som que ouvi (culpa dos captadores...), perto, mas não 100% lá!

Pela sua própria natureza e características de construção, a semi-acústica não tem o HONK  nos médios complexo da Les Paul, mas é um timbre muito bonito, bem "single coilish" e clean! O preço era US$ 7.500,00.
Gibson ES-345 Stereo 1963


          Encerrando os testes relevantes dessa primeira loja, foi a vez da Fender Stratocaster 1969. O corpo de alder bem leve, braço de maple com escala de Rosewood (veneer board) e headstock grande ainda sem o bullet no tensor. Braço gordinho e confortável, tradicional "Full C". Essa Strato tem um timbre bem percussivo e claro, com uma leve sobra de médio-agudos característica da época.
Engraçado que na hora me veio o som dos captadores Custom Shop 69 da Fender, sem muitos graves e até meio magro mas com bastante percussão, que ouvimos nas gravações da Funk Music e até mesmo de Jimmy Hendrix. Mas é notável o som das madeiras nessa guitarra com o ataque seco e "woody" que só uma Strato antiga entrega. Definitivamente um timbre clássico de Strato! Preço: US$ 15.000,00 (OUCH!). As Stratos do período de 1969 são conhecidas como "CBS Transition" por ainda manter a boa qualidade dos anos 60, antecedendo o período CBS crítico conhecido como "Dark Years" pela qualidade instável dos instrumentos. Pra vocês terem uma ideia, uma Strato 1973 (apenas 4 anos depois) pode ser achada por US$ 4500,00.

Fender Stratocaster 1969


         Acho que dei uma sorte danada por essa oportunidade de testar 3 guitarras clássicas com timbres ótimos, todas juntas! A agressividade do P90, a delicadeza dos Pat# na 345 e o estalado percussivo da Strat 69...Todos são timbres imortais e clássicos!

PS: Até Cigar Box Guitar genérica (U$300,00) não soou tão ruim assim !:-)

Cigar Box Guitar

Continua.....